Os 3 conselhos de Miguel Rêgo (CFA), Responsável de Análise da FundsPeople

Nesta rubrica convidamos alguns dos mais reputados especialistas em investimentos financeiros a partilharem consigo três conselhos sobre poupança e investimentos. O convidado desta edição é Miguel Rêgo, responsável de análise da FundsPeople, desde 2016, licenciado em Economia pela Nova SBE e CFA. Ao longo dos últimos 15 anos, o Miguel desenvolveu uma sólida carreira na área de análise de investimentos e gestão de ativos. Não perca tempo, Simplesmente Invista!

Perfil LinkedIn: Miguel Rêgo, CFA | LinkedIn

Tenha ele caído no colo, porque a sorte sorriu no euromilhões, ou tenha custado muitíssimo a ganhar e poupar depois de semanas, meses e anos de trabalho, a verdade é que ninguém gosta de perder dinheiro. Isto é especialmente verdade neste nosso belo país à beira-mar plantado onde os números nos dizem que o investidor médio português é extremamente conservador. O depósito a prazo é rei no portefólio de investimento português, se é que lhe podemos chamar sequer investimento. Não obstante – e para isto não tenho números – observamos empiricamente que estão muito disseminadas duas características muito marcadas que se opõem ao conservadorismo:  o amor pela “dica” e o medo de ficar de fora (Fear Of Missing Out ou FOMO). As duas estão relacionadas.

Imaginemos o Sr. Zé (personagem ficcional) da mercearia que passou décadas a juntar umas dezenas de milhares de euros, tudo aplicado num depósito a prazo porque “com o dinheiro não se brinca”. Mas se o Sr. Manuel do café diz que investiu na ação XYZ porque um amigo do filho disse que podia triplicar o dinheiro – a “dica” -, o Sr. Zé liga imediatamente ao banco para desmobilizar o depósito – o FOMO. São mais as vezes do que menos em que esta atitude resulta em perdas, desilusão e um renovado medo de investir. Um comportamento paradoxal demasiado comum. Certamente cada um de nós tem alguma história ou conhece algum caso similar, quiçá até na primeira pessoa.

A verdade é que se este paradoxo é popular, é também popular a sabedoria que dá a resposta ao paradoxo. Mais especificamente, a velha ideia de que “no meio é que está a virtude”.

Investir entre o depósito e a dica

É certo que acumular o dinheiro no banco é confortável, mas também é certo que é uma forma garantida de se perder dinheiro. Literalmente, uma probabilidade de 100% de se perder dinheiro com o passar do tempo. Isto acontece como resultado de um pequeno (felizmente) fenómeno chamado inflação, que corrói lentamente o poder de compra de cada euro que temos a descansar no banco. É daqui que nasce o primeiro conselho com o recurso a uma velha expressão da sabedoria popular:

Conselho nº 1: “Quem não arrisca não petisca!”. Há que pôr o dinheiro a trabalhar para nós.

Mas a definição de risco é muitas vezes mal compreendida e é tipicamente, e de forma simplificada, definida como a volatilidade que se tem que tolerar para atingir determinados resultados dos investimentos. Na verdade, a verdadeira noção de risco é a possibilidade de ver o dinheiro desaparecer ao invés de crescer. Ninguém se quer ver no vermelho.

Ambas as definições de risco se veem diluídas, quanto maior for o horizonte de investimento, mas a segunda é aquela que não se dilui apenas com o tempo, e para a dispersar melhor é preciso um outro ingrediente, aquele que foi definido por Harry Markowitz como o “único almoço grátis dos mercados”: a diversificação.

Nasce assim o segundo conselho, deste almoço grátis, como definido, por este prémio Nobel da economia:

Conselho nº 2: Não pôr os ovos todos no mesmo cesto. Há que diversificar as fontes de retorno.

Mas mais importante do que o dinheiro que se vai ganhar, é o dinheiro que se vai manter. Para o fazer não é só o medo de não ganhar tanto como o vizinho que pesa na capacidade de agir de forma racional. Estão documentados muitos vieses comportamentais que afetam a nossa forma de encarar os investimentos. Ninguém está imune. Nem o Sr. Zé da mercearia, nem o gestor de fundos com milhares de milhões de euros em ativos sob gestão. Estratégias robustas, sistemáticas, consistentes, ajustadas ao horizonte temporal e ao perfil de risco, são as soluções para eliminar o ruído emocional das carteiras de investimento.

Conselho nº 3: “Se não controlas as emoções não controlas o teu dinheiro”, disse em tempos Warren Buffett e disse muito bem!

Introduzo, finalmente e à socapa (foram-me pedidos apenas três conselhos de investimento), algumas chamadas de atenção. Primeiro, muito cuidado com os custos envolvidos nas operações de investimento. Os custos podem ser o maior detrator de rentabilidade a longo-prazo. Maior cuidado ainda quando o serviço é pretensamente gratuito, porque quando não se vê o custo, este é normalmente mais alto.

E com isto em mente, um segundo e último alerta. Existe uma oferta grande e cada vez maior de serviços de investimento, com preços para todas as carteiras. Uma gestão profissional dos investimentos não é a promessa de retornos absurdos e irreais, mas sim, uma adequada gestão de todos os riscos envolvidos no processo. Se o google e o Instagram não são bons médicos, também não são bons gestores. Os médicos existem para cuidar da nossa saúde. Os profissionais de investimento existem para cuidar da saúde do nosso dinheiro.

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